agradeço aos que não me amaram

agradeço aos que não me amaram
pelo minucioso motivo de optarem não me amar
quando o amor é no entendimento deles uma opção
 
agradeço aos que me compararam
e que provaram meu beijo
pra ter certeza de outra boca
 
agradeço aos que não me amaram
porque viram meus defeitos
e fizeram deles a única imagem possível a me representar
 
agradeço aos que me esqueceram
como se eu fosse naftalina
que se perdeu por entre as roupas de inverno
 
agradeço aos que olharam e não me viram
deles pude sentir a desatenção mais pura das pessoas
compenetradas em seus estresses e desamores
 
e dos que me fizeram desatenta
agradeço o momento em que olhei e não vi
por estar também estressada e desamorosa
 
agradeço aos que não me amaram
por pintarem em mim seus piores defeitos
ou suas filosofias platônicas
 
agradeço aos que me julgaram e excluíram
deles recebi o acalento
de não ser uma fruta podre
 
agradeço aos que não me amaram
pelo simples fato de mostrarem aos meus sentimentos
o terreno arenoso onde se constrói a realidade e a vida
 
e nada mais
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reurbanização

se eu ficar aqui sentada talvez o poema desça
pelos meus braços e dedos até o teclado
em movimentos de iô-iô do cérebro até o chão das palavras
se eu ficar aqui sentada talvez o poema desça
como meu corpo desce até o chão de porcelanato com seu peso sobre ele
em movimentos de iô-iô de bem-me-quer & malmequer

nos tipos de chão onde as palavras se encaixam:
?o que dizer quando não se consegue dizer.
?o que tocar quando não se pode tocar.
toco uma palavra quando quero sua boca
porque tocar a palavra boca é diferente de tocar boca com boca
veja: .

não quero a imagem do beijo
quero o beijo
não quero a imagem do toque
quero o toque
reurbanizar os corpos que nos são possíveis

?você faz versos ou constrói mentiras
?você beija ou apenas pensa na possibilidade dele
?onde está a poesia fora dos versos

matilde campilho heartbreaker

my dear as frutas estão frescas
é só se lambuzar
tome cuidado que talvez
os sentimentos apodrecem como
verduras caso estejam fora da geladeira
eu quis my dear
tocar seus cabelos rebeldes no seu pior dia
deixar crescer plantas num quintal de casa
onde cuidaríamos de pés enormes
de morenas tropicanas
oliveiras cinzas
e coentros imensos
imersas my dear numa manada de concretos de portalegre
my dear seus cabelos dançariam entre
as flores altas no muro imaginário
da casa de paredes sentimentais
construídas de artesanato-amor
crochê-amor acrílico-amor
escorrendo toques sutis e úmidos de mistérios
o sol não vai nascer sem seus olhos de névoa fixos
nos meus e as plantações não vingam
sem seus sopros de escorpiana
no leito do rio onde me deito

nas árvores do mundo existem pragas brancas

das frutas estranhas nas árvores do sul
que billie holiday sangrou na voz, ela diz
strange fruit
black bodies swinging in the southern breeze
que surgiu de um poema
feito pela abel meeropol quando viu numa foto
dois negros enforcados numa árvore, ela diz
southern trees bear a strange fruit
sem saber que a fotografia
era de indiana, no norte do país.
 
passando por mississippi em chamas,
pela roupa cristã dos ku klux klan
e mississippi goddam, aquela música que
nina simone fuzila
e também por luther king em washington
levantando as mãos pra cima.
 
passando pelo amarildo no errejota
pelos rolezinhos que ameaçavam
os brancos dos shoppings
e a estátua de um negro acorrentado
num supermercado em essepê
e o racismo coordenado nas redes sociais.
 
o policial que foi obrigado a se despir num
mercado pra provar que não roubou nada
o ator que foi confundido com bandido
e permaneceu 16 dias na cadeia
o goleiro chamado de macaco
num jogo vendido como fair play
[é estranho dizer a profissão
sem incluir a cor pra justificar humilhações].
 
o branco não consegue evoluir
nem se tiver lei
nem se for pago
 
as pragas brancas desceram das árvores, billie
caminham bípedes munidas de 4g
para o resto do horizonte

deadcrush

;é numa cama de solteiro que a gente pode
aprender a se amar como grandes amantes;
meus seios pequenos apertados no vão entre
seus seios com alt-j tocando; e eu fazendo al
guma piada sobre “deadcrush”: quero matar
meu crush em você e de preferência perto
das suas mãos e sua voz que me invadem
como água quente em julho e pedras aqueci
das pelo sol do verão de dezembro; seu olhar
ele me invade até em foto do instagram; você
estava o tempo todo me olhando de longe en
quanto eu te olhava do lado de cá; os corpos
nunca se cruzam quando se cruzam os olhos;
?por quê. você está a mil quilômetros de dis
tância dos meus lábios; a um clique do celular
e a um segundo do meu tesão; tudo é relativo
na sombra das consciências; um corpo peque
no como o meu guarda um coração cheio de
túmulos de amores passados; devidamente
enterrados; há grama verde; há vontade de
dar o que nunca dei de mim; ou dei e joga
ram fora num mundo de lésbicas que nos
trocam pelas amigas na primeira carência;
não; não tenho só túmulos esta área está
à parte em meu peito e mais que isso eu
sinto com o cérebro; eu sinto com a boce
ta e os braços e coxas; sinto com razão e
todas as propriedades e todos os desconh
ecimentos da vida [pois morte não nos ca
be]; sinto vontade de amar você numa ca
ma de solteiro; é num canto pequeno que
a gente pode começar humilde os carinhos;

hoje você sabe amar e ser fiel porque eu te ensinei

agora você sabe o que significa um compromisso depois de pi
sar em mim suas traições e seu feminismo egoísta enquanto eu
era a mulher sofrendo na sua frente. que mostrava a você o que
era o amor nas palavras e no corpo. que perdoava todas as vezes
que você me desvalorizava. a mulher que você usou como test-
drive pra fazer bonito agora com outra. o que você vê nela são
estilhaços de uma dor que me causou e você não quer feri-la co
mo me feriu. apenas porque não quer mais sentir fracasso como
mulher que ama outra mulher. depois do estrago feito comigo vo
cê virou as costas porque eu parecia um objeto difícil ao seu dese
jo. minha imagem em cacos de espelhos te perseguem como flash
backs com suas atitudes comigo e agora você evita a todo custo que
alcancem o corpo dela e o que ela sente por você. quem te ensinou
 
a amar f
 
ui eu, e hoje você sabe. na sala negra dos seus pensamentos sem
edições eu fui o cordeiro imolado para a sua salvação. você saiu
com as mãos sujas de meu sangue e se banhou num lago de reden
ção do ego e o amor dela era o seu caminho de santa ao paraíso.
hoje você tem um amor e luta por ele porque te ensinei no corte
da minha pele o que era amar e ser amada. ou a tentativa disso.

3d

o osso esfenoide homenageando brasília
com suas asas sustentando o peso
de você
na base crânica da sua cabeça
lunática
o etmoide, o etmoide emergindo
como um submarino no frontal,
que é céu e mar
teto e base
na órbita dos seus olhos castanhos
agarrados por uma pata trigêmica e oftálmica
bilateral

na vista superior da base do crânio
vejo o seu chão da caatinga
no terreno petroso do osso temporal
que guarda um labirinto de sons mágicos
como o som da sua carótida pulsando
enquanto você segura uma concha
no seu meato acústico externo
acreditando ser o barulho do mar

quantas diferenças de potencial e energia
você consome
ao me ver
onde está o impulso
que me leva até a parte mais íntima
do seu encéfalo nadando em líquor
por qual forame penetro
por qual artéria me perfuso
em qual músculo me insiro
em que tecido me fixo
como formol
em você

a flor de drummond e a náusea de sartre

não tenho casa, me disseram hoje.
estico o lençol de elástico na cama,
tento ajustar na cama que me deram,
me deram uma cama pra dormir.
o lençol é pequeno pra cama,
mas tem que ser assim.
as coisas tem de ser curtas
do tamanho da nossa importância no mundo
do tamanho do nosso dinheiro
a gente não pode tapar o colchão todo
porque satisfaz.
não tenho casa, me disseram hoje.
o suor do meu trabalho pagou
a inflação dos produtos que consumi
e quando olhava pra trás
ainda trabalhando
me sentia sufocada pela máquina
e sem reconhecimento dela
e não podia sentir frio e tristeza, doença e angústia e preguiça:
a ameaça do fuzilar das dívidas nos matam antes de deitarmos no caixão.
quando se é pobre não se pode ser triste.
tristeza afeta a produção. a classe pobre pesa como
uma crise renal no pensamento
mas sorri e trabalha: não pode ser triste.
a tristeza vem de graça.
não tenho casa, me disseram hoje.
não tenho a flor de drummond, e não vejo
tentativas de flores nas vias públicas. tem nos condomínios fechados. não pulei muro
pra ver.
a náusea do sartre é chique, isso de você se sentir ser humano
porque se apercebeu.
 
você só existe com dinheiro.

ponto

ano passado ela terminou comigo me deixando um postal do degas
que ela comprou na argentina com um livro
de uma poeta espanhola que mora na argentina
 
-coisas que pessoas que não nos amam gostam de fazer pra nos agradar-
o tiro de consolação
 
e hoje eu estava abrindo furiosa a geladeira e esse postal
que deixo grudado na geladeira
 
-coisas masoquistas que fazemos
 
o postal caiu e eu li o postal. que estava ali mas não estava eu não
olhava. mas estava.
 
meus olhos fixaram na frase “você vai ser sempre eterna em mim” com vírgula
seguida de meu apelido e ponto.
 
eu olhei o sol invadindo minha janela
como se fosse um corpo denso e não apenas luz e vi:
tudo que é eterno está morto e a única coisa que eu não gostaria era
de ser eterna em alguém
eu não sei nem o que é que esse negócio de eterno pode ser e
ninguém sabe. ninguém nunca viu algo eterno
a vida é esse avesso de infinito
e não sei mensurar coisas que não tem medida
 
a única coisa eterna que eu recebo dela é o ponto final da frase.
 
esse ponto sim
diz bem sobre despedidas
ponto
mas se fosse entender a frase
como uma presença marcante nela
eu ainda seria gerúndio na vida dela
 
– porque coisas que amamos não colocamos um ponto.
 
e isso é pesado demais pra quem só abriu a geladeira bruscamente.