intensive care

a droga vasoativa
a isquemia no córtex
sua anisocoria
seu corpo em bacteremia
seu pé diabético
sua escara na lombar
sua saturação a noventa por cento
sua lágrima caindo
depois que te aspiro
com sonda número dezesseis
sua secreção
mucopurulenta
seus braços edemaciados
a pressão arterial numa roda gigante
seu hematoma subdural pressionando seu inconsciente
sua pele irrigando o leito
com exsudato
seu intestino com uma bolsa
seus rins que não funcionam
nem ejetam eritropoetina na medula óssea
pra lutar contra a anemia
ou o cansaço da doença
sua cabeça raspada
um tubo na boca
um peito dançando ar mecânico
 
uma vida num leito do sus ou convênio.

enigma do ressentimento

estou cega
o poema não sai.
 
tateei no mais íntimo escuro
volumosas tristezas e alegrias
as saudades obesas
fundos de garrafas vazias
de memórias desconectadas
onde ecoavam sentimentos sem
a forma dos acontecimentos.
 
estou cega e o poema não sai.
 
?por que nunca alcançamos
o desejo por inteiro.
 
um passo em falso e perco
o mais fino pensamento
de águas cristalinas de lucidez
de versos que explicam o mundo
águas que se esvaem por um boeiro
um vão sem fundo
um fluxo de pertencimentos
quando sou o completo despertencer
e de mim despertencem
poemas ações pessoas
 
estou cega e o poema não sai.
 
retido em barragem
ou muros como o da cisjordânia
ou de berlim
e me respingam apenas
gotas fugitivas
de lambadas sentimentais furiosas
que a consciência não traduz
os olhos não alcançam
o tato não sente:
completa prisão do ventre
de alças intestinais de concreto
pedras cristalizadas nos rins
e agora imune a transposições
 
?o que o poema faz e
por onde anda o poema
quando não posso senti-lo.

artificialis

tenho uma lua só minha
que ilumina minha janela todas as noites
e todas as noites é lua nova, todas as noites
traz ao meu canto um vento gelado
que quando sinto chegar parece
uma onda noturna
de um mar revolto e suave
que desmaia na minha pele
luz água & solidão.
ameniza o calor
de portalegre
e me faz escrever sobre
a vontade de um novo dia
apesar dos assaltos na esquina
e a falta de emprego.
apesar da falta de amor, a lua me ilumina
enquanto me banho
numa onda sinestésica.

tenho uma lua só minha
que ilumina minha janela todas as noites
e todas as noites é lua nova,

desde que o vizinho do prédio ao lado
no 8o andar
deixe sua luz fluorescente da varanda
acesa.

pessoas artificiais, os robôs profundos

as pessoas estão doidas.
as pessoas estão doidas.
não há nada além que o poema possa dizer.
olho pela janela, daqui vejo
uma avenida em portalegre.
as pessoas se toleram nas ruas porque se ignoram.
as pessoas caminham livremente nas ruas porque cumprem horários de compromissos.
as pessoas falam e escrevem apenas o necessário porque falar e escrever no whatsapp não requer olhar nos olhos.
elas foram robotizadas na escola.
depois as faculdades passam maquiagem nos robôs.
nas pós-graduações colocam salto alto, os homens e mulheres.
os robôs vestidos provincianamente caminham por ruas e avenidas
que tem cheiro de cocô de gente e de cachorro, cheiro de formol, ou algo podre mantido em conserva (talvez seja a cidade),
os robôs se espremem nos ônibus e metrôs
cada um olhando seu smartphone
sobre as últimas notícias do atentado em paris
e os ônibus e metrôs são sujos
as ruas são sujas
as mãos dos robôs são sujas
elas sujam a cidade inteira
e pagam os impostos todos
pra colocar a culpa dos problemas sociais em outros
e passam a agir conforme seu entorno age
e o robô vê sua função de robô-social ativada
e reproduzem matérias tendenciosas na internet
e aceitam tranquilamente um golpe na democracia
e que falam, e pelos céus, falam em comunismo
como se estivéssemos em 1960
é uma vergonha, não o fato de serem robôs, mas robôs antiquados
robôs atrasados
!nem pra delirar no aqui e agora
!nem pra delirar num contexto atual.
deliram de passado.
e eu da janela do meu quarto sou a jovem que meu país
obstruiu a juventude, e obstrui a de milhões de outros jovens.
eu queria dizer ESSE PAÍS É MEU e esses milhões de jovens diriam ESSE PAÍS É NOSSO
mas são uns robôs mais velhos que nossos avós que estão no poder e fodem infinitamente com a nossa esperança de dizer que ah, esse país nos pertence.
o país está lá, nas mãos dos mercenários, das máfias legalizadas
a máfia dos taxistas
a máfia dos policiais
a máfia dos juízes
e a dos políticos
a máfia dentro da educação, da saúde, da segurança, e nos dizem
VAMOS ACABAR COM A CORRUPÇÃO
e os robôs repetem
mantendo os corruptos.
as pessoas estão doidas
as pessoas estão doidas
elas não vivem, elas rastejam
elas se enganam todo humilde dia
há anos
e há anos a cidade é assolada por assaltos e assassinatos
há anos tudo foi muito bem tolerável.
chegam as vozes dos três poderes brasileiros.
eles sorriem de boca fechada e mantém o olhar
no centro de portalegre. sobrevoam nossas cabeças.
não nos tocam.
no alto de um prédio perto da dr. flores, um cavalo de metal
com dom quixote montado carrega um trenó.
acho que jorra esperança lá de cima.
às vezes a esperança despenca e se choca no asfalto, eu vi, sem
encontrar robô para transformar em pessoa.
no asfalto a esperança esparramada se transforma
em milhões de gotículas perfurocortantes machucando sonhadores que caminham pelas calçadas.
semi-pessoas que se reconfortam agora como novos robôs.
vejo aqui da janela a cidade lentamente desfalecer.
algumas tardes fiquei sob o olhar atento do cavalo
esperando respingar em mim
a tragédia da esperança que fora perdida no asfalto.
tal qual a flor de drummond, todos os dias ali, parada, fracassei na espera. era o ponto feio e móvel que sonhava com uma cidade viva.
não a encontro.
de que adianta um poema dizer tudo isso
quando as pessoas morreram e quem me lê é robô
quem me lê já não se importa
?quem lê isso já se acomodou.
pa pa pa. 12 tiros no peito e na cara de uns robôs
na frente de cada hospital portalegrense. vem a perícia, flashes, testemunhas, jatos d’água
e segue a vida dos robôs.
‘inda se eu fosse robô, não estaria solitária.
essa é a vida do século vinte e um?

seus olhos sabem mais do que você

seus olhos, quando me olham,
entregam nos meus
os sentimentos que você
não enxerga em si.
você quando dorme esconde os olhos e
me pergunto se então
guardados
eles encontram em sonhos o que você
não vê com o sol.
aqui do lado de fora você sibila
e ronca
com a complacência de uma tuberculosa
e você é tão linda
mesmo sendo
estrangeira de si.
tão lindo seu olhar de gripada e asmática
debruçados nos meus olhos
e seus olhos me permitem tanto
avançar em você
e te sentir
que lá dentro no seu escuro pensamento
eu me pergunto se você me invade
enxergando o que sinto por você.
treino meu olhar no espelho
pra saber se você vê
o meu amor neles –
mas o espelho não é você.
e minha cama de solteira
parece enorme
sem você e suas tosses
com sua voz de cássia eller.
 
babe, não me machuque
não pise no sentimento que tem
mas não vê
não desgaste nossos olhares
em tretas joguinhos e
atitudes de adultos frustrados
que eu quero dar só meu amor
meu afago e minha arte e
babe, não nos machuque
eu ainda não escrevi em mandarim
com a minha língua
a palavra orgasmo em você
que se não me engano faz movimentos assim
性高潮
ainda não jogamos frescobol
no nascer do sol em ipanema
e não terminamos o filme
com a liz taylor
não gozei o suficiente
no ponto ao lado do seu sinal.
 
ah se você soubesse a maneira que me olha
e se você não me enganasse
ah se você soubesse o quanto seus olhos me amam
e como seu corpo me ama
e como tudo é recíproco
e se você não sentisse medo de você
se você não sentisse medo de amar
eu mergulharia mais vezes no seu olhar e
você mergulharia no meu
me angustia não dar todos os carinhos
que nasceram e querem crescer em você
 
aqui, do lado de fora,
meu peito em congestão de amores
que seus olhos querem
mas sua cabeça não.
 
aqui, do lado de fora,
desejo que seus olhos encontrem seus olhos no espelho
e percebam, como um passo em falso,
uma queda leve até a sensação atormentadora
da falta dos meus olhos em frente aos seus.
 
seus olhos sabem mais do que você
seus olhos
um dia
pedirão pelos meus
 
seus olhos sentem mais do que você.

lov express

você consome amor
como quem consome livro
e cerveja
o amor virou
marca de grife
dos grosseiros e histéricos
aos neuróticos e poéticos
os amores são
consumidos e experimentados
em aplicativos que
funcionam como black friday:
os amores estão
em liquidação.
a imagem do seu rosto
exibe o produto
com idade e breve descrição
do quem sou eu e
da distância.
você é o escambo
na sua busca de algo
que não sabe o que é.
os amores vivem
nesse livre comércio e
as eternidades não duram
um ciclo menstrual
ou uma temporada
de série

eu amei você quando ninguém te amaria no meu lugar

eu amei você quando ninguém te amaria no meu lugar.
amei você com a sua falta de empatia
seu desgosto pela vida
sua revolta, suas buscas em qualquer
tipo de droga
eu amei você e olhava fundo nos seus olhos
e via todas as suas belezas
sufocadas
pelas suas incertezas
pelo seu despertencimento
eu via em você uma força
que nunca vi em outra mulher.
eu amei você quando ninguém te amaria no meu lugar.
suas fugas, suas verdades manipuladas,
suas intenções ocultas,
amei todas
antes mesmo
de amar a parte mais fácil e simples,
sua parte sofisticada
de mulher forte, com sonhos,
feliz, sociável.
amei todas as suas limitações
todas as bordas ampliadas
da sua personalidade
que me abraçou e encaixou no meu corpo pequeno
e me aninhou
como ninguém.
eu amei você quando ninguém te amaria no meu lugar.
eu amei você quando nem você se amaria.
eu amo em você seu descaminho e sua volta
lenta
tentando me encontrar.

me use para o seu pole dance

sussurrei, e você escutou do outro lado do atlântico, do outro lado do desejo:
me use para o seu pole dance.
se equilibre em mim, gire ao meu redor
mantenha os músculos do abdome firmes
enquanto me percorre.
me use para o seu pole dance,
lap dance,
me use
me use como anne sexton usava os versos
para confissões de mulher
me use como o amor urgente de drummond
num chão qualquer
me use como os desejos de álvaro de campos
em fernando pessoa
me use como uma coreografia
a ser executada pela beyoncé.
me use para o seu pole dance
se esfregue, dance, rebole, me use para o seu pole dance!
passe as mãos pelo meu corpo
puxe os meus cabelos
agarre minha cintura:
treine em mim

me use para o seu pole dance