deadcrush

;é numa cama de solteiro que a gente pode
aprender a se amar como grandes amantes;
meus seios pequenos apertados no vão entre
seus seios com alt-j tocando; e eu fazendo al
guma piada sobre “deadcrush”: quero matar
meu crush em você e de preferência perto
das suas mãos e sua voz que me invadem
como água quente em julho e pedras aqueci
das pelo sol do verão de dezembro; seu olhar
ele me invade até em foto do instagram; você
estava o tempo todo me olhando de longe en
quanto eu te olhava do lado de cá; os corpos
nunca se cruzam quando se cruzam os olhos;
?por quê. você está a mil quilômetros de dis
tância dos meus lábios; a um clique do celular
e a um segundo do meu tesão; tudo é relativo
na sombra das consciências; um corpo peque
no como o meu guarda um coração cheio de
túmulos de amores passados; devidamente
enterrados; há grama verde; há vontade de
dar o que nunca dei de mim; ou dei e joga
ram fora num mundo de lésbicas que nos
trocam pelas amigas na primeira carência;
não; não tenho só túmulos esta área está
à parte em meu peito e mais que isso eu
sinto com o cérebro; eu sinto com a boce
ta e os braços e coxas; sinto com razão e
todas as propriedades e todos os desconh
ecimentos da vida [pois morte não nos ca
be]; sinto vontade de amar você numa ca
ma de solteiro; é num canto pequeno que
a gente pode começar humilde os carinhos;

hoje você sabe amar e ser fiel porque eu te ensinei

agora você sabe o que significa um compromisso depois de pi
sar em mim suas traições e seu feminismo egoísta enquanto eu
era a mulher sofrendo na sua frente. que mostrava a você o que
era o amor nas palavras e no corpo. que perdoava todas as vezes
que você me desvalorizava. a mulher que você usou como test-
drive pra fazer bonito agora com outra. o que você vê nela são
estilhaços de uma dor que me causou e você não quer feri-la co
mo me feriu. apenas porque não quer mais sentir fracasso como
mulher que ama outra mulher. depois do estrago feito comigo vo
cê virou as costas porque eu parecia um objeto difícil ao seu dese
jo. minha imagem em cacos de espelhos te perseguem como flash
backs com suas atitudes comigo e agora você evita a todo custo que
alcancem o corpo dela e o que ela sente por você. quem te ensinou
 
a amar f
 
ui eu, e hoje você sabe. na sala negra dos seus pensamentos sem
edições eu fui o cordeiro imolado para a sua salvação. você saiu
com as mãos sujas de meu sangue e se banhou num lago de reden
ção do ego e o amor dela era o seu caminho de santa ao paraíso.
hoje você tem um amor e luta por ele porque te ensinei no corte
da minha pele o que era amar e ser amada. ou a tentativa disso.

3d

o osso esfenoide homenageando brasília
com suas asas sustentando o peso
de você
na base crânica da sua cabeça
lunática
o etmoide, o etmoide emergindo
como um submarino no frontal,
que é céu e mar
teto e base
na órbita dos seus olhos castanhos
agarrados por uma pata trigêmica e oftálmica
bilateral

na vista superior da base do crânio
vejo o seu chão da caatinga
no terreno petroso do osso temporal
que guarda um labirinto de sons mágicos
como o som da sua carótida pulsando
enquanto você segura uma concha
no seu meato acústico externo
acreditando ser o barulho do mar

quantas diferenças de potencial e energia
você consome
ao me ver
onde está o impulso
que me leva até a parte mais íntima
do seu encéfalo nadando em líquor
por qual forame penetro
por qual artéria me perfuso
em qual músculo me insiro
em que tecido me fixo
como formol
em você

a flor de drummond e a náusea de sartre

não tenho casa, me disseram hoje.
estico o lençol de elástico na cama,
tento ajustar na cama que me deram,
me deram uma cama pra dormir.
o lençol é pequeno pra cama,
mas tem que ser assim.
as coisas tem de ser curtas
do tamanho da nossa importância no mundo
do tamanho do nosso dinheiro
a gente não pode tapar o colchão todo
porque satisfaz.
não tenho casa, me disseram hoje.
o suor do meu trabalho pagou
a inflação dos produtos que consumi
e quando olhava pra trás
ainda trabalhando
me sentia sufocada pela máquina
e sem reconhecimento dela
e não podia sentir frio e tristeza, doença e angústia e preguiça:
a ameaça do fuzilar das dívidas nos matam antes de deitarmos no caixão.
quando se é pobre não se pode ser triste.
tristeza afeta a produção. a classe pobre pesa como
uma crise renal no pensamento
mas sorri e trabalha: não pode ser triste.
a tristeza vem de graça.
não tenho casa, me disseram hoje.
não tenho a flor de drummond, e não vejo
tentativas de flores nas vias públicas. tem nos condomínios fechados. não pulei muro
pra ver.
a náusea do sartre é chique, isso de você se sentir ser humano
porque se apercebeu.
 
você só existe com dinheiro.

ponto

ano passado ela terminou comigo me deixando um postal do degas
que ela comprou na argentina com um livro
de uma poeta espanhola que mora na argentina
 
-coisas que pessoas que não nos amam gostam de fazer pra nos agradar-
o tiro de consolação
 
e hoje eu estava abrindo furiosa a geladeira e esse postal
que deixo grudado na geladeira
 
-coisas masoquistas que fazemos
 
o postal caiu e eu li o postal. que estava ali mas não estava eu não
olhava. mas estava.
 
meus olhos fixaram na frase “você vai ser sempre eterna em mim” com vírgula
seguida de meu apelido e ponto.
 
eu olhei o sol invadindo minha janela
como se fosse um corpo denso e não apenas luz e vi:
tudo que é eterno está morto e a única coisa que eu não gostaria era
de ser eterna em alguém
eu não sei nem o que é que esse negócio de eterno pode ser e
ninguém sabe. ninguém nunca viu algo eterno
a vida é esse avesso de infinito
e não sei mensurar coisas que não tem medida
 
a única coisa eterna que eu recebo dela é o ponto final da frase.
 
esse ponto sim
diz bem sobre despedidas
ponto
mas se fosse entender a frase
como uma presença marcante nela
eu ainda seria gerúndio na vida dela
 
– porque coisas que amamos não colocamos um ponto.
 
e isso é pesado demais pra quem só abriu a geladeira bruscamente.

intensive care

a droga vasoativa
a isquemia no córtex
sua anisocoria
seu corpo em bacteremia
seu pé diabético
sua escara na lombar
sua saturação a noventa por cento
sua lágrima caindo
depois que te aspiro
com sonda número dezesseis
sua secreção
mucopurulenta
seus braços edemaciados
a pressão arterial numa roda gigante
seu hematoma subdural pressionando seu inconsciente
sua pele irrigando o leito
com exsudato
seu intestino com uma bolsa
seus rins que não funcionam
nem ejetam eritropoetina na medula óssea
pra lutar contra a anemia
ou o cansaço da doença
sua cabeça raspada
um tubo na boca
um peito dançando ar mecânico
 
uma vida num leito do sus ou convênio.

enigma do ressentimento

estou cega
o poema não sai.
 
tateei no mais íntimo escuro
volumosas tristezas e alegrias
as saudades obesas
fundos de garrafas vazias
de memórias desconectadas
onde ecoavam sentimentos sem
a forma dos acontecimentos.
 
estou cega e o poema não sai.
 
?por que nunca alcançamos
o desejo por inteiro.
 
um passo em falso e perco
o mais fino pensamento
de águas cristalinas de lucidez
de versos que explicam o mundo
águas que se esvaem por um boeiro
um vão sem fundo
um fluxo de pertencimentos
quando sou o completo despertencer
e de mim despertencem
poemas ações pessoas
 
estou cega e o poema não sai.
 
retido em barragem
ou muros como o da cisjordânia
ou de berlim
e me respingam apenas
gotas fugitivas
de lambadas sentimentais furiosas
que a consciência não traduz
os olhos não alcançam
o tato não sente:
completa prisão do ventre
de alças intestinais de concreto
pedras cristalizadas nos rins
e agora imune a transposições
 
?o que o poema faz e
por onde anda o poema
quando não posso senti-lo.

artificialis

tenho uma lua só minha
que ilumina minha janela todas as noites
e todas as noites é lua nova, todas as noites
traz ao meu canto um vento gelado
que quando sinto chegar parece
uma onda noturna
de um mar revolto e suave
que desmaia na minha pele
luz água & solidão.
ameniza o calor
de portalegre
e me faz escrever sobre
a vontade de um novo dia
apesar dos assaltos na esquina
e a falta de emprego.
apesar da falta de amor, a lua me ilumina
enquanto me banho
numa onda sinestésica.

tenho uma lua só minha
que ilumina minha janela todas as noites
e todas as noites é lua nova,

desde que o vizinho do prédio ao lado
no 8o andar
deixe sua luz fluorescente da varanda
acesa.